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Por que escolhi ser professor de física

Do Cabo de Santo Agostinho à sala de aula: quatro anos de feira e trabalho, um livro que virou mágica, a UFPE e as bolsas que me impediram de desistir.

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Quatro anos de feira até a sala de aula

Concluí o ensino médio na Escola Estadual José Rodrigues de Carvalho em 2009. Fui um dos poucos da turma que tentou o vestibular. Não passei.

Naquela época faltava professor de monte. A gente carregava um déficit grande de aprendizagem, principalmente em exatas. Passei boa parte do ensino médio com um professor de Física e Química. Mas teve uma coisa que mudou tudo: por causa do Plano Nacional do Livro Didático, chegou em casa um livro de Física, o da professora Beatriz Alvarenga. Eu lia aquilo como quem descobria um truque de mágica. A cada capítulo, um mundo novo. Entender os fenômenos da natureza com leis e matemática, e ainda usar isso pra resolver problema do dia a dia. Aquilo me empolgava de verdade.

Só que não passar no vestibular me derrubou. Junte a isso a realidade de ser de família pobre, e estudar virou luxo. Cinco pessoas na mesma casa, aluguel, energia, água. Sobra o mínimo pra comida e zero pra estudo. Era hora de trabalhar.

Os anos de trabalho

Trabalhei desde cedo. Dos 14 aos 18 fiz de tudo na Feira do Mercadão do Cabo: frete, venda de fruta, o que aparecesse. Depois passei por uma antiga fábrica de tecidos em Pirapama. E fui garçom no Vila Galé Eco Resort do Cabo.

Foi no Vila Galé que pela primeira vez tive um chão firme debaixo dos pés. Estabilidade. E com estabilidade voltei a sonhar com faculdade. Quatro anos depois de sair do ensino médio, em 2013, finalmente consegui pagar um cursinho pré-vestibular.

Aí veio a dúvida de todo jovem: e agora, o que fazer da vida? Seguir na hotelaria fazia sentido. Eu já estava na área, tinha network, era reconhecido como bom funcionário, com chance de promoção. E olha, eu trabalhava com empenho: garçom, barman, atendente de evento, o que pedissem eu fazia direito. Sou grato a tudo que aprendi no Vila Galé. Mas eu não amava aquilo a ponto de querer fazer pelo resto da vida.

Então me fiz uma pergunta diferente. De todos os lugares onde já tinha trabalhado, qual era o ambiente mais agradável? Aquele que eu não queria faltar nunca, que eu queria aprender a fundo pra me tornar um profissional de verdade e ainda ajudar gente? O hospital? A feira? O restaurante? O hotel? O canteiro de obras? A sala de máquinas da confecção?

Nenhum. A escola.

Repara que eu não perguntei onde eu ganharia mais. Perguntei o que me faria bem. E a resposta foi: professor. Na minha cabeça, professor é o cara que vive num ambiente legal, que está sempre estudando e dividindo o que sabe.

Por que Física? A resposta óbvia é que eu gosto. Gosto de estudar Física. Mas ensinar é outra coisa, diferente de estudar. Como praticamente não tive professor de Física no ensino médio, quis juntar o útil ao agradável: na faculdade eu ia estudar Física de verdade, com professores incríveis e laboratório bem montado. E, no fundo, era também um protesto. Eu não tive professor de Física na rede pública. Um dos meus grandes objetivos sempre foi dar aula na rede pública, encontrar estudantes que vivem as mesmas dificuldades que eu vivi e mostrar pra eles que dá, sim, pra chegar lá mesmo com tudo contra.

Dentro da UFPE

Entrei no Departamento de Física da UFPE, um dos mais conceituados do país. E não é exagero meu, não. Ali passaram e trabalharam cientistas de peso, como Sérgio Rezende, que fundou o departamento e chegou a ser Ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil. Tinha o professor Anderson Gomes, o René Montenegro, o Cabral, e outros. Sentar pra estudar num lugar desses, vindo de onde eu vim, mexia comigo todo dia.

Mas faculdade pública pra quem é pobre não é só passar e pronto. É conseguir chegar lá todo dia. E foi aí que as bolsas seguraram a minha barra. O PIBID pagava minha passagem de ônibus. A bolsa do Restaurante Universitário garantia o meu almoço. Falo com toda sinceridade: sem essas duas coisas eu tinha desistido. Não tinha como.

O curso é duro de um jeito que pouca gente imagina. Entram uns 30 e se formam de 3 a 5 no tempo certo. O resto vai ficando pelo caminho.

E tinha o choque social, que eu sentia na pele. Teve dia de eu não ter o dinheiro da passagem enquanto, do meu lado, um colega reclamava que o pai não foi buscar de carro. Ou que não tinha gostado do carro que ganhou. Eu ouvia aquilo calado, com a minha conta de cabeça pra saber se ia dar pra voltar pra casa.

Por outro lado, foi ali que eu entendi de verdade por que aquilo se chama universidade. Tinha gente de todo tipo e de toda opinião. Do nerd dos animes e doramas ao hipster soviético, passando pelo preguiçoso de plantão. Convivência com o diferente, todo dia.

Não vou me pintar de gênio. Eu era nem bom demais, nem ruim demais. O suficiente pra sobreviver, sair com o diploma na mão e ter a certeza de que dominei bem mais do que o necessário pra ser professor de Física.

E aqui vai um recado carinhoso pra galera dos outros cursos: cada curso da UFPE tem a sua dificuldade, cada um no seu quadrado. Mas física é física. 😄

Os meses mais pesados foram no ciclo profissional, quando a Física específica aparece pra valer. Ali é que o couro come. Mas é também onde você sente que está virando, de fato, alguém da área.

O retorno

Hoje eu sou, na rede pública, o professor de Física que eu não tive. Dou aula na ETE Epitácio Pessoa. E todo dia eu olho pra aquela turma e vejo um pedaço de mim ali sentado, com as mesmas dúvidas e as mesmas dificuldades que eu carreguei.

O que eu tento mostrar pra eles é simples e é verdade: educação muda história. Mudou a minha. Da feira do Cabo até a sala de aula, foi ela que me trouxe. E pode trazer eles também.